Tempo da Semente - Ensaio sobre o Livro Pon

Os motivos pelos quais este Livro deve ser promovido e importa na formação de uma geração.

Luiz Macedo

4/21/202517 min read

Plante uma Semente de Sabedoria com o Livro do Pon
Plante uma Semente de Sabedoria com o Livro do Pon

O Intervalo Invisível: Sobre Sementes, Silêncios e Invenções Reais

Nem tudo que se transforma, se move. Nem tudo que se move, transforma.

Há um espaço entre uma coisa e outra — um intervalo sutil onde quase nada acontece…
mas tudo se prepara.

Esse intervalo raramente é valorizado. Vivemos sob o domínio de uma lógica produtivista que mede o valor das coisas pelo ritmo com que florescem, pela rapidez com que entregam frutos. Mas a natureza nos mostra outra sabedoria: a semente não tem pressa.

Ela permanece ali, imersa no escuro, cercada por terra, silêncio e umidade. Ela não “faz” nada — ao menos, nada visível. Mas o essencial está acontecendo: raízes estão sendo formadas.

O psicólogo suíço Carl Jung escreveu certa vez:

A árvore que alcança o céu precisa ter raízes que toquem o inferno.”

É no invisível que a estrutura profunda se constrói. É no escuro que o real começa a ganhar forma.

O Tempo que Não se Vê

Na Grécia Antiga, havia duas palavras para o tempo: Chronos, o tempo cronológico, e Kairos, o tempo oportuno. Enquanto Chronos mede os minutos que passam, Kairos aponta os momentos que nos atravessam.

A maior parte da vida moderna é vivida em função do Chronos — agendas, deadlines, lançamentos. Mas o que verdadeiramente nos transforma — e transforma o que criamos — acontece no Kairos: no intervalo entre o fim de uma coisa e o início de outra.

Esse intervalo tem nome na psicologia contemporânea: “estado liminar. É quando já não somos o que éramos… mas ainda não sabemos o que estamos nos tornando.

Na tradição judaico-cristã, esse intervalo aparece como deserto, travessia, silêncio de Deus.
Na filosofia oriental, como o vazio fértil — wu wei, o não-agir ativo. Na inovação real, como pausa criativa.

Inovar Também é Silenciar

Nas corporações, inovação virou sinônimo de agilidade. Mas as invenções mais revolucionárias costumam surgir de silêncios profundos — de escutas longas, de pausas incômodas, de observações pacientes.

Antes de ser uma solução, uma inovação precisa ser uma pergunta honesta.

E perguntas honestas só aparecem quando desaceleramos o pensamento automático e criamos espaço para a percepção.

Isso exige maturidade. Exige a coragem de não preencher todos os vazios com ação. Exige presença.

Presença: o Novo Sucesso

Num mundo que premia a velocidade e a exposição, cultivar silêncio é um ato contracultural. Num mundo que pede resultado a cada semana, respeitar o tempo da semente é uma forma de fé.

Presença não é estar ocupado. É estar inteiro.

E é isso que queremos ensinar às crianças com o livro do Esquilo Pon: que liberdade se constrói com escolhas conscientes, que o dinheiro deve servir, não dominar, e que a vida floresce no tempo certo — quando há raízes para sustentá-la.

O Intervalo Como Solo

O espaço entre uma coisa e outra não é um vácuo. É um solo invisível. Um útero. Uma antessala do novo.

Aquele que não aprende a habitar esse espaço, perde o melhor da vida — porque vive apenas nos extremos: no que já foi ou no que ainda não chegou.

Mas quem aprende a estar ali, inteiro no intervalo, começa a ver o invisível. Começa a ouvir o que antes era só ruído. Começa a criar com consciência.

Porque é nesse intervalo — silencioso, simbólico, sagrado — que a verdadeira transformação acontece.

Sementes de Sabedoria: Quando um Livro Infantil Vira um Movimento de Consciência

Nem todo livro infantil é apenas para crianças. Alguns carregam em si sementes simbólicas capazes de germinar em qualquer idade — no adulto cansado, no jovem confuso, no líder em silêncio.

O Esquilo Pon, à primeira vista, é uma história simples: um pequeno animal que sofre com a fome e o frio, aprende com um mestre e transforma sua realidade com base em princípios como coragem, planejamento e generosidade. Mas por trás da fábula, esconde-se um código. Um chamado. Uma semente.

E toda semente, quando bem plantada, não transforma só quem a planta — transforma o solo inteiro.

Educar é Semear no Invisível

Toda boa educação é um ato de fé no futuro. Não vemos o resultado imediato. Não há garantia. Mas acreditamos que aquela ideia plantada hoje pode emergir um dia — num gesto, numa escolha, numa nova visão de mundo.

A história de Pon ensina isso sem didatismo: que o planejamento financeiro, o cuidado com o outro e a disciplina são virtudes fundamentais. Mas, mais que isso, ensina que o verdadeiro sucesso começa dentro — como uma raiz silenciosa que se forma antes de qualquer fruto visível.

Essa pedagogia simbólica tem nome: educação formativa — aquela que não se limita a transmitir informação, mas molda caráter, visão e sentido. E esse tipo de educação começa cedo. Com histórias. Com exemplos. Com símbolos.

O Livro como Ferramenta de Transição Cultural

Vivemos um tempo em que crianças são tratadas como consumidores desde cedo. O algoritmo as cerca. A ansiedade as molda. E o pensamento de longo prazo — aquele que envolve plantar, cuidar, esperar — vai sendo substituído pela lógica do “quero agora”.

Por isso, livros como o Esquilo Pon não são apenas literatura: são contracultura.

Quando uma criança lê que um pequeno esquilo sonhou com seu primeiro milhão de nozes, mas só conseguiu realizá-lo porque aprendeu a organizar, dividir, guardar e compartilhar… ela não está apenas lendo. Ela está absorvendo valores que faltam nos adultos.

Promover essa história não é vender um livro. É participar de uma revolução invisível: a formação de uma geração mais consciente, mais preparada e menos iludida com a ideia de sucesso imediato.

A Voz de Salon e a Voz da Consciência

O personagem Salon, o esquilo sábio, não grita. Ele orienta. Ele escuta. Ele entrega sabedoria com gentileza.

Na tradição mitológica, essa figura representa o arquétipo do mestre interior — aquele que surge quando o protagonista está pronto para escutar.

Na linguagem da psicologia junguiana, é a função transcendente: a ponte entre o que somos e o que podemos nos tornar.

Salon aparece no inverno da alma de Pon. E não oferece soluções mágicas, mas princípios eternos. Princípios que, quando aplicados, transformam não só a vida do protagonista, mas a vida de todos à sua volta.

Essa é a pedagogia dos arquétipos: silenciosa, atemporal, universal.

Quando Contar uma História é um Ato Político

Ao promover o Esquilo Pon, não estamos apenas lançando um produto editorial. Estamos fazendo um gesto político no melhor sentido da palavra: o gesto de investir na consciência coletiva.

Porque enquanto muitos oferecem distrações, oferecemos profundidade. Enquanto muitos ensinam a competir, ensinamos a compartilhar. Enquanto muitos ensinam a acumular, ensinamos a cultivar.

A criança que hoje lê Pon será o adulto que amanhã não será refém do consumo, nem vítima do imediatismo. Será alguém que entende que tempo é solo fértil, que dinheiro é ferramenta, e que sabedoria é a maior herança.

Cada Leitor, uma Semente

Promover esse livro é muito mais do que vender uma história bonita.

É lançar sementes.
É confiar que, mesmo no silêncio, algo está germinando.
É assumir o papel de jardineiro de um tempo melhor.

E talvez, daqui a anos, quando um adulto fizer uma escolha sábia, generosa ou resiliente, ele mesmo não se lembre exatamente do nome “Pon”… Mas algo dentro dele terá sido moldado por essa história.

Porque é assim que as sementes funcionam: elas somem da vista, mas permanecem vivas.
Silenciosas.
Trabalhando por dentro.
Até que o tempo certo revele sua flor.

O Silêncio como Herança: O que Plantamos sem Saber

Nem tudo que deixamos para as próximas gerações vem embrulhado em papéis ou registrado em cartórios.

Há heranças invisíveis que se instalam nos gestos, nos hábitos, nos silêncios e nas histórias — ou na falta delas. Aquilo que não dizemos, não nomeamos e não elaboramos também se transmite. E, muitas vezes, com mais força do que imaginamos.

Educar, portanto, não é apenas um ato de ensinar. É um ato de semear. Mesmo em silêncio.

A transmissão invisível

Na psicologia transgeracional, estudada por autores como Anne Ancelin Schützenberger e Bert Hellinger, há a compreensão de que padrões emocionais, traumas não resolvidos e até sonhos interrompidos podem atravessar gerações.

Uma criança que cresce vendo seus pais tratando o dinheiro com culpa, medo ou escassez — mesmo sem uma única conversa explícita sobre finanças — aprenderá a mesma linguagem emocional. E talvez passe a vida inteira tentando encontrar segurança onde nunca houve raiz.

Mas o contrário também é verdadeiro: Quando uma criança vê um adulto resistindo ao impulso do imediatismo, cultivando hábitos com paciência, fazendo escolhas éticas e compartilhando com gratidão… ela absorve algo maior do que conselhos.
Ela aprende
o que é possível ser.

Somos sempre herdeiros de algo que não entendemos completamente.
E somos também semeadores do que ainda não veremos florescer.

O livro como espelho do não dito

O Esquilo Pon é, entre outras coisas, um espelho simbólico. Ele nos mostra o que tantas vezes negligenciamos: que a fome do inverno não começa no inverno. Começa na distração da primavera. Na negligência sutil. No "depois eu vejo isso".

Pon é uma criança que sofre as consequências de uma estrutura frágil — mas que decide buscar sabedoria. E ao encontrar Salon, o mestre silencioso, compreende que precisa construir aquilo que não recebeu pronto.

Salon oferece, no fundo, o que todos gostaríamos de ter tido: alguém que dissesse, com calma e sabedoria, como fazer diferente.

Ao lermos essa história com uma criança — ou mesmo sozinhos — algo se alinha. Reconhecemos os invernos não preparados em nossa própria vida. E também a possibilidade de sermos o Salon de alguém.

A sabedoria do ciclo: restaurar e continuar

Há algo profundamente restaurador em reconhecer que podemos mudar o curso das coisas. Que podemos ser o ponto de inflexão de um ciclo. Que podemos parar de repetir e começar a renovar.

Isso é especialmente verdadeiro quando falamos de infância. Porque cada conversa que temos com uma criança pode quebrar um ciclo inconsciente. Cada história lida com presença pode instalar um novo valor no coração dela.

A criança não precisa entender tudo agora. Basta que ela sinta o cuidado — e isso ficará como semente até que seja hora de florescer.

A escolha de contar uma história como a do Pon, portanto, não é neutra. É uma escolha de linguagem simbólica, de valor emocional e de visão de futuro. É dizer: "Você importa. Suas escolhas importam. E é possível se preparar para o inverno com leveza, coragem e consciência."

Herança é aquilo que fazemos ecoar no outro

Quando um adulto lê o livro do Pon para uma criança — com intenção, com pausa, com escuta — ele está dizendo mais do que as palavras da página.

Ele está dizendo:
"Eu me importo com o que vai crescer dentro de você."
"Eu reconheço sua inteligência, seu medo, sua capacidade."
"Eu quero te deixar algo que nem o tempo pode roubar."

Essa é a verdadeira herança: Aquela que o outro leva por dentro, e que o ajuda a atravessar os invernos da vida sem perder o sentido.

O que você está plantando agora, mesmo em silêncio?

Você pode nunca ter falado sobre dinheiro com seu filho, mas ele já percebeu como você se comporta ao pagar uma conta.

Você pode nunca ter dito que é importante ter paciência, mas sua impaciência o moldou.

Você pode nunca ter contado sua história — mas seu silêncio sobre ela já foi interpretado como uma história.

A boa notícia é que sempre é tempo de plantar algo novo.

E, às vezes, basta um gesto simples: abrir um livro, sentar ao lado de alguém, e deixar que a história faça o que as palavras não conseguem.

Porque há silêncios que gritam. Mas há silêncios que curam.

E educar é justamente isso: curar os ruídos invisíveis do passado, plantando histórias novas no coração do futuro.

Antídoto contra o Agora: Como Histórias Educam para o Tempo

Vivemos aprisionados em um agora incessante. A notificação que vibra. O número que pisca. A entrega que nunca é suficiente.

Nesse presente contínuo, a criança é arrastada junto — acostumada a ter antes de pedir, a ganhar antes de desejar, a mover-se antes de entender.

Mas o tempo não é só movimento. O tempo, quando bem vivido, educa. E educar para o tempo é, hoje, um ato radical.

O tempo real e o tempo psicológico

A infância não mede o tempo por relógios. Ela o mede por histórias. Por pausas. Por repetições silenciosas. Por olhares demorados.

Jean Piaget afirmava que a percepção do tempo é uma construção complexa e emocional, e que se forma através da vivência — não da instrução.

Uma criança aprende sobre tempo ao experimentar espera, antecipação, tédio, rotina e surpresa. Mas a infância contemporânea tem sido podada desses espaços vazios.
E onde não há vazio, não há crescimento.

Sem a experiência do intervalo, a criança não entende o ciclo.
E sem o ciclo, ela não entende o valor da paciência, da construção, da colheita.

A história como instrumento de alongamento interno

Boas histórias são mais do que enredos. Elas são instrumentos de educação temporal da consciência. Elas nos treinam para a espera, para o encadeamento, para a construção de sentido com começo, meio e fim.

Ao ouvir uma história, a criança aprende que existe um “depois” que ainda não chegou — e que é preciso permanecer no “agora” com atenção.

O Esquilo Pon ensina isso sem parecer aula. Ele permite que a criança entre na jornada do protagonista. Ela sente o frio chegando. Percebe o erro. Busca ajuda. Encontra um mestre.
E só depois, depois de muitas escolhas, há transformação.

Essa estrutura narrativa respeita o tempo do crescimento. E ao acompanhar Pon, a criança aprende a se ver também como alguém em processo. Ela se reconhece semente.

A pedagogia da lentidão

Contrapondo a velocidade dos aplicativos e a lógica do “tudo para ontem”, o livro do Pon entrega algo precioso: tempo simbólico.

  • Tempo para errar e aprender.

  • Tempo para buscar ajuda.

  • Tempo para aplicar o que se aprendeu.

  • Tempo para colher, compartilhar e recomeçar.

Isso é pedagogia da lentidão, conceito trabalhado por autores como Carlo Petrini e Loris Malaguzzi — que defendem uma educação que respeita o ritmo interno da criança, sem forçar acelerações externas.

Quando damos tempo à infância, ela nos devolve profundidade à vida adulta.

Educar para o longo prazo é educar para o real

A ausência de pensamento de longo prazo é uma das principais causas de sofrimento adulto. É o que leva ao endividamento emocional e financeiro, à pressa de se tornar antes de se formar, ao medo do tempo como inimigo.

Ao ensinar uma criança a planejar, guardar, dividir e sonhar com consistência, estamos ensinando algo que nem sempre aprendemos: que o tempo não precisa ser uma ameaça — pode ser um aliado.

O livro do Pon ensina isso com leveza: mostra que guardar é sabedoria, que esperar é força, e que o sonho precisa de rotina, não só de emoção.

A rebelião do ciclo: contra o consumo, a consciência

Promover livros que respeitam o tempo simbólico da criança é mais do que um ato pedagógico.

É uma resistência à lógica do consumo que quer fazer da infância um mercado e da atenção um produto.

Cada vez que você lê uma história assim para uma criança, você planta nela a ideia de que o mundo pode ser mais lento, mais sábio e mais conectado com a vida real.

Você ensina, sem dizer: “Não precisa ser agora. Pode ser depois. E vai ser melhor assim.”

Essa é a formação mais difícil — e mais poderosa: a de uma criança que não tem medo do tempo.

Contar histórias é treinar o coração para o tempo

A boa história não termina quando o livro se fecha. Ela continua vibrando dentro, como um compasso interno, ensinando que a vida tem ritmo, não apenas velocidade.

Ensinar uma criança a habitar a história é ensinar a habitar o próprio tempo.

E num mundo que vive em função do agora, essa é uma das lições mais urgentes que podemos oferecer.

A Infância como Solo da Inovação Humana

Toda árvore grandiosa nasceu de algo invisível. Toda grande ideia, antes de ser conceito, foi sonho. E todo adulto criativo, ético e resiliente… um dia foi criança.

Mas em tempos de aceleração, esquecemos disso. Esquecemos que a infância não é uma etapa a ser superada — é a fundação sobre a qual tudo se constrói. Se negligenciamos esse solo, não importa o quanto tentemos inovar depois — construiremos sobre areia.

Infância não é ausência — é potência em silêncio

Costumamos tratar crianças como “seres em formação”, como se ainda não fossem inteiras.
Mas elas já são. Já percebem, sentem, interpretam. Já formam imagens do mundo a partir do que vivenciam.

A filósofa Hannah Arendt alertava que a crise da modernidade é, em parte, a incapacidade de proteger o que nasce. O novo, o frágil, o inesperado — tudo isso precisa de espaço e acolhimento para germinar. E isso começa… na forma como olhamos para uma criança.

Toda criança é uma inovação viva em potencial.
E toda inovação começa na imaginação — que é o ofício mais sério da infância.

A imaginação como ensaio para o futuro

Se quisermos um mundo com adultos inovadores, éticos e conscientes, precisamos cultivar a imaginação construtiva na infância. Mas o que isso significa?

Significa oferecer histórias que não apenas entretenham, mas que mostrem a criança como protagonista de processos, não apenas de resultados. Significa ensinar que o mundo pode ser transformado — mas que isso exige visão, coragem e persistência.

O Esquilo Pon é um espelho dessa jornada:

  • Ele começa com medo e insegurança.

  • Encontra um mentor, recebe princípios.

  • Aplica, erra, acerta, compartilha.

  • E termina se tornando referência para outros.

Essa estrutura narrativa é mais que literatura: é modelagem simbólica de pensamento inovador.

Pon é um arquétipo da inovação real

Diferente das narrativas heroicas que vendem o sucesso como explosão, Pon nos ensina que a inovação começa em outro lugar: no frio, na escassez, na dúvida — e na capacidade de escutar.

Ao encontrar Salon, Pon descobre que o futuro não está no que ele sente agora, mas no que ele pode construir com consciência.

Esse é o roteiro de toda inovação relevante: dor → busca → escuta → prática → consistência → impacto.

Se a criança internaliza esse modelo simbólico desde cedo, ela cresce com uma lente diferente sobre o mundo. Não se ilude com atalhos. Não espera soluções mágicas. Não foge do trabalho de base.

Educar para a criatividade é educar para a responsabilidade

Inovação sem base ética vira espetáculo vazio. Imaginação sem consciência vira manipulação. Por isso, é preciso formar não apenas mentes criativas, mas corações comprometidos com o bem comum.

E esse compromisso nasce em pequenas histórias. Quando a criança vê Pon dividir suas nozes. Quando entende que ele ajuda sem ser obrigado. Quando percebe que ele investe e cuida da floresta como se ela fosse extensão de si.

Esses pequenos gestos simbólicos plantam a ética no imaginário. E uma vez plantada, a ética cresce como raiz. Silenciosa. Firme. Presente em tudo o que vier depois.

A escola e a casa como berços da semente criativa

Se o mundo corporativo exige inovação constante, por que a escola continua treinando repetição? Se queremos adultos capazes de colaborar, por que o lar promove competição silenciosa? Há uma desconexão entre o mundo que sonhamos e o mundo que preparamos.

Ler o Esquilo Pon em sala de aula, ou no colo de um pai, é um ato de reorientação. É lembrar que a infância é laboratório de humanidade. E que nela devem estar os ingredientes do futuro:

  • imaginação,

  • reflexão,

  • propósito,

  • cuidado.

Toda inovação começa com uma pergunta feita na infância

Não é à toa que os grandes inovadores do mundo guardam uma relação profunda com a imaginação infantil.

  • Steve Jobs falava da intuição e da estética aprendidas no silêncio da juventude.

  • Einstein dizia: “A imaginação é mais importante que o conhecimento.”

  • Maria Montessori defendia que a educação deveria “libertar o potencial da criança para que ela se transforme em si mesma”.

Promover histórias como a do Pon é mais do que um gesto pedagógico: é investir na infraestrutura simbólica da sociedade. É formar o tipo de mente que não apenas se adapta — mas que transforma.

Porque, no fim, toda grande inovação humana já foi, um dia, apenas um sonho de criança.

Um Milhão de Nozes: Ética, Dinheiro e Consciência desde o Começo

O dinheiro está em tudo, mas quase nunca é abordado com sabedoria. Falamos dele como se fosse apenas um instrumento técnico — quando, na verdade, ele é também símbolo, emoção e escolha. E tudo isso se aprende cedo. Muito cedo.

As crianças percebem o valor do que compramos, o tom com que falamos de trabalho, o gesto automático diante de uma promoção, o silêncio constrangido diante de uma conta. Antes mesmo de saberem somar, já começaram a internalizar a linguagem emocional do dinheiro.

Por isso, falar de educação financeira não é apenas falar de matemática. É falar de visão de mundo. E isso o Esquilo Pon faz com delicadeza rara.

O dinheiro como linguagem de consciência

Ao longo da história de Pon, vemos um arco completo de transformação financeira que ultrapassa a lógica da acumulação:

  • No começo, o dinheiro (representado pelas nozes) é visto com medo: algo escasso, que pode faltar.

  • Depois, com esforço, vira segurança: um estoque, uma reserva.

  • Em seguida, torna-se base para trocas, melhorias, expansão.

  • E por fim, vira ferramenta de solidariedade, propósito e legado.

Essa progressão é pedagógica. Ela ensina — por símbolos — que o dinheiro não deve ser o centro, mas o meio. Que acumular sem compartilhar empobrece. Que riqueza de verdade tem a ver com autonomia, generosidade e responsabilidade.

“O segredo do sucesso”, diz Salon, “não está apenas em acumular nozes, mas no que você faz com elas.”

Essa frase carrega mais filosofia do que aparenta. Ela traduz o que muitos adultos ainda não compreenderam.

Economizar, investir, compartilhar: uma trilha ética

O livro propõe uma trilha sutil, mas poderosa:

  1. Economizar — como ato de cuidado com o futuro, não de medo

  2. Investir — como gesto de visão e preparação.

  3. Compartilhar — como expressão de maturidade e sentido.

    Essa trilha ensina desde cedo que lidar bem com o dinheiro não é apenas uma técnica — é uma virtude.

Na tradição da filosofia prática (de Aristóteles a Amartya Sen), a ética é construída no cotidiano, a partir de hábitos que moldam o caráter. E quando o dinheiro entra nesse cotidiano, ele se torna campo privilegiado para exercitar o bem comum, a prudência e o discernimento.

Por que isso precisa ser ensinado na infância?

Porque é na infância que o dinheiro ainda não se tornou peso, culpa ou poder. É na infância que ele ainda pode ser apresentado como uma energia com direção, não como um fim em si mesmo.

Quem aprende a poupar brincando, aprende a sonhar com responsabilidade. Quem aprende a dividir sem medo, aprende a crescer com sentido.

Essa é a diferença entre formar consumidores… e formar cidadãos conscientes.

O Esquilo Pon propõe essa transição com leveza: não demoniza o dinheiro, mas o recoloca no lugar certo. Não transforma a história em lição de moral — transforma-a em metáfora de sabedoria.

A floresta como economia viva

Ao trocar nozes por avelãs, melhorar sua toca, colaborar com outros animais, Pon mostra às crianças um modelo econômico mais saudável:

  • Não há exploração, mas colaboração.

  • Não há escassez desesperada, mas organização.

  • Não há acúmulo egoísta, mas partilha sustentável.

    Isso nos convida a repensar o próprio modo como falamos de economia com os pequenos. Ao invés de introduzir o dinheiro como ameaça (“se você gastar tudo, vai se arrepender”), podemos apresentá-lo como possibilidade:

“Com planejamento, você pode ajudar mais.
Com equilíbrio, você pode sonhar mais longe.
Com consciência, você pode cuidar do que importa.”

A ética financeira como pilar do futuro

Educar financeiramente é, no fundo, educar para a liberdade. E não há liberdade real sem consciência.

O Pon se torna livre — não porque ficou rico — mas porque aprendeu a lidar com o tempo, com o desejo e com o outro. Essa é a verdadeira autonomia: não depender do caos externo para se manter inteiro.

Essa autonomia é o que queremos para as próximas gerações. E ela não virá de planilhas, mas de histórias. Histórias como a de Pon, que mostram, com doçura e profundidade, que o que fazemos com as nozes diz muito sobre quem estamos nos tornando.

O que você faria com um milhão de nozes?

Essa pergunta, que pode parecer lúdica, é na verdade uma das mais sérias que podemos fazer a uma criança — e a nós mesmos.

Porque no fundo ela pergunta:

Se você tivesse segurança, o que você faria com ela?
Se você tivesse abundância, como você escolheria viver?
E se tivesse sabedoria, com quem você escolheria compartilhar?

A resposta a essas perguntas não define apenas um plano financeiro. Ela define um modo de estar no mundo.

E talvez, se mais crianças tiverem acesso a histórias como a de Pon, teremos menos adultos aprisionados pelo medo do dinheiro — e mais gente capaz de usá-lo como ele foi feito para ser: uma ponte, e não um trono.

A história só termina quando vira gesto

Ler o Esquilo Pon é só o começo.
O verdadeiro impacto acontece quando essa leitura transborda em ações concretas —
na maneira como ensinamos, como cuidamos, como falamos com as crianças, como cuidamos do futuro delas.

E isso pode acontecer:

  • Na sala de aula

  • No sofá de casa

  • Num abrigo

  • Num grupo de jovens

  • Numa empresa que deseja criar cultura com propósito

Em qualquer lugar onde haja um coração disposto, a história do Pon pode florescer.

Luiz Macedo